terça-feira, 2 de setembro de 2014

Capítulo 1 – A Morte nas Águas




Capítulo 1 – A Morte nas Águas



(Trilha sonora sugerida: Ludwig van Beethoven - Moonlight Sonata)


A água que é o símbolo da vida e que compõe a maior parte do nosso corpo pode nos salvar em um deserto escaldante, mas pode nos destruir, deixar sem ar, nos afogar. Tudo que existe nesse mundo ou em qualquer outro mundo que ainda desconhecemos possui duas faces tênues entre si, desde as moléculas mais básicas até os equipamentos mais complexos. Do oxigênio a bomba atômica. Tudo pode ser para o bem e para o mal. E também pode ser relativo, para o bem de uns e o mal de outros, dependendo do ponto de vista.
Mas o que determina a forma como a fonte da vida será utilizada para a morte é o movimento dentro de uma interminável lei de ação e reação. Tudo que fazemos de errado retorna invariavelmente contra nós um dia. Mas repare que o sujeito “nós” é a representação de uma coletividade completamente interdependente e mesmo que você haja da forma mais correta possível, de acordo com os preceitos da sua consciência, a ação de outra pessoa pode se voltar contra você mesmo. Ou a ação combinada de pessoas. Ou a “não ação”.
Então ao olhar nos meus olhos, que já conquistaram muitas pessoas perceberá que a cor que reflete a esperança já não espera mais nada da vida.
Desolada, já sem lágrimas no rosto, a fome se misturando com a sede e a vontade de não existir mais para não sentir nada, eu caminhava pelas ruas sem destino, sem saber por que ou para onde ir.
Deparei-me com uma ambulância e muitos socorristas trazendo um empresário desfalecido de dentro de um prédio enorme. Pela movimentação dos funcionários tratava-se de alguém importante. Senti uma sensação estranha como se aquela vida estivesse se esvaindo na minha frente e mesmo depois de tantas perdas recentes que tive aquilo me tocou. Não sei se foi a constatação que mesmo o dinheiro, a fama ou a força de vontade dos entes queridos não conseguem impedir a morte.
Um rapaz jovem acompanhava aquele senhor e pude notar que a relação parecia ser entre pai e filho. Antes de eles entrarem na ambulância eu notei algo que me impressionou mais ainda: o olhar daquele rapaz cruzou com o meu, cheio de lágrimas, perdido, mas não como os meus. Eu me sentia perdida no sentido de não querer mais ir por caminho nenhum, mas ele queria desesperadamente ir, mas não sabia pra onde. Pedi a Deus que os acompanhasse, pois se a mim não tivesse salvado, quem sabe a eles...
Pra mim não existe mais saída. O único caminho é o mar! O mesmo mar que levou naquele acidente de barco, meus pais, irmãos, marido e filhos e que me cuspiu viva pra areia, completamente sozinha, sem mais ninguém com quem contar, por quem ainda aqui ficar, esse mar dessa vez vai ter que me levar.
A cada passo que dou me aprofundando nas águas, sentindo as ondas me empurrando contra minha decisão ou a maré me puxando a favor é como se as mãos do meu amor fossem tocando meu corpo, subindo pelas minhas pernas, agarrando meu corpo, me possuindo aos poucos, com carinho mas de um jeito tão intenso.
Como ele me faz falta, como sinto saudade da forma como ele me olhava, de como me fazia sorrir com seu sorriso, de como me dava paz com seu peito me acolhendo e como me tirava do eixo com o jeito que me tocava.
Lembrando dele nem sinto o gelado da água, nem percebo ela chegando ao meu pescoço, as ondas já quebrando acima da minha altura e eu começando a engasgar com a água.
Lembro dos meus filhos brincando na areia, correndo em torno da gente... a verdadeira felicidade era a alegria e a pureza nos olhos deles.
Engulo mais água e apago por alguns momentos que não consigo precisar, quando recupero a consciência ouço gritos, pessoas querendo me salvar, tento afundar mais, ir mais longe, mas já não tenho força pra nada, só quero morrer logo, antes que alguém consiga evitar minhas intenções.
E finalmente não sinto mais nada, nem o frio das águas, nem o som das pessoas, nada, tudo se tornou escuridão.
É o fim!

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