segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Capítulo 2 - Pesadelo sem fim


Será que não morri? 
Uma dor pequena começou a me incomodar na cabeça e logo meu corpo inteiro parecia formigar, com pontadas semelhantes a fincadas de faca. A dor se tornou muito grande e eu comecei a sentir uma leve garoa cortante em meu rosto e alguns pingos densos caindo aos poucos em meus olhos, até que consegui abri-los
(Trilha sonora sugerida: Requiem Nitanch ou K.626 Dies Irae)


O desespero começou a tomar conta de mim, nunca havia sentido tanto medo em minha vida. Sombras vagavam a minha volta e eu me vi numa espécie de santuário macabro, uma escuridão dominante com luzes vermelhas que faziam toda a água que jorrava de diversas fontes parecerem sangue. Olhei para o céu e essas luzes que iluminavam quase como um neon vinham de dois lados diferentes, de 2 estrelas que pareciam como o Sol. As sombras eram como nuvens negras pequenas e baixas que se locomoviam rapidamente para todos os lados e algumas carregadas de chuva, inesperadamente se abriam e encharcavam por onde passavam. Uma dessas nuvens bem próxima de mim parecia me vigiar e jogava água na minha direção. Além da dor e do medo, um frio começou a me fazer tremer inteira. Então, um forte grito agudo que parecia de uma mulher chegou aos meus ouvidos, um berro de angústia e de sofrimento. Eu finalmente começava a conseguir me mexer quando um outro barulho estranho se aproximava. Parecia como se uma imensa represa tivesse sido aberta e a água tivesse chegando até mim rapidamente. Eu comecei a gastar o que conseguia ter de forças pra levantar, me arrastei rapidamente, escalei um pequeno monte rochoso que havia a frente, mas não adiantou de nada. Uma onda altíssima que parecia uma enchente me atingiu e me carregou, o impacto foi tão forte que desmaiei novamente.Não sei quanto tempo se passou até eu começar a sentir duros golpes no rosto. Eu estava levando tapas na cara muito fortes
.- Acorda sua vadia! Tá pensando que isso aqui é colônia de férias? Num é conto de fadas não. Num é principezinho que vai te acordar com beijo, não!
Eu abri os olhos e vi uma mulher. Ela estava em cima de mim, me esbofeteando. A dor queimava! Eu levantei os braços e comecei a me proteger, me virei com força, tentei me desvencilhar, até cair no chão. Eu estava em cima de uma espécie de cama, parecida com um colchão de água.
Tentei me levantar mas minhas pernas dobravam. Minhas coxas doíam muito e eu senti uma dor ainda maior no meio delas quando tentei ficar em pé.
- O que foi? Achou que a gente ia te trazer pra cá, te por numa cama e não ia usar do seu corpo enquanto tivesse desacordada? Todo mundo por aqui já te provou. Carne nova, sabe como é o desejo da galera.
Eu quis matar aquela velha desgraçada. Pulei pra cima dela com uma força que nem eu sabia que tinha. Logo vieram outras mulheres e me seguraram, me tiraram de cima dela, que mais parecia uma bruxa mendiga.
Uma moça tentava me acalmar, me sentou num banco, me pediu pra respirar, me deu copo de água pra beber e tudo ficou bem de repente. Não havia mais problema nenhum que me atormentasse, na verdade fiquei até um pouco feliz, com um sorriso bobo.
- Ei, moça! Fica aqui! Presta atenção! Não apague ok? O primeiro gole de água é sempre o mais difícil, mas se você deixar sua mente se fechar dentro dela mesma, vai ser difícil sair. E algo que você com certeza não vai querer é ficar presa dentro da sua cabeça.
Eu já não estava entendendo mais nada, não sabia onde eu estava, o que tinha acontecendo. Aquela mulher ali na minha frente tentando me acalmar. Nossa, ela era realmente linda. Eu estava furiosa e de repente com um gole de água, tudo mudou. O que será que tudo aquilo queria dizer. Uma voz me chamava  pro mundo dos sonhos, mas eu ainda conseguia ouvir o que falavam ali.
- Bate nela, sua lesada! - Dizia a bruxa carcomida!
- Não, Leiva, sabe que tem dois jeitos de trazer alguém de volta e que o jeito da agressão não faz meu estilo.
- Respondeu a moça que segurava minha cabeça com as duas mãos e me olhava firmemente nos olhos.- Lá vem ela com os discursos moralistas. Bate que resolve logo! - Insistiu a velha.
A moça continuava com o rosto dela muito próximo do meu e nem respondeu. Ela fechou os olhos e simplesmente me beijou. Um beijo intenso, que levou vários segundos, talvez minutos. Eu não tive reação, não sei se não fiz nada ou se retribui. Minha mente foi saindo de mim e depois voltando. E quando ela parou e eu me senti muito mais consciente que antes.
- Onde estou afinal? - Foi minha primeira pergunta. - E afinal o que foi isso? - A segunda.
- Aqui é Neon, o mundo obscuro das águas. Você foi mandada para cá após morrer e já deve saber que a morte é uma passagem e a maneira como você vive, assim como a maneira como você morre determinam pra onde deverá seguir.
 - Mas o que foi isso? Por que me beijou? - Interrompi. Ainda estava muito confusa.
- Se acalme. A água destilada aqui é a essência desse mundo. Água pura! Ela é um estimulante para a mente, nos mantém lúcidas quando o desespero toma conta. Mas ela também pode ser letal, um veneno que nos prende para sempre em nossa própria mente, se você se perde não consegue mais voltar a não ser que alguém a traga de volta, com fortes pancadas na cabeça ou com um beijo intenso.
- Foi uma sensação muito estranha... E o que é essa dor que eu sinto?
- As mulheres que te trouxeram da fúria das águas tem como costume abusar de quem salvam... Existem alguns brinquedos que elas usam que respondem como se a relação fosse entre um homem e uma mulher, causam a mesma sensação pra ambas. Como já pode perceber, nesse mundo não existem homens... Bom acredito que você reagiu inconscientemente de uma forma que agradou a maioria delas... Sentia prazer mesmo desacordada e esse instrumento devolve o prazer em mesma intensidade. Normalmente as novatas reagem assim... Por isso agradam tanto.
- Eu senti prazer? Não sei o que pensar... É tão difícil de entender isso tudo... Que loucura!
(Trilha sonora sugerida: John Williams - The Imperial March)

Um som de ondas se quebrando vinha se aproximando. Já me arrepiava toda só de imaginar a chegada das águas novamente.
- TODAS PREPARADAS! - Gritou a moça que conversava comigo. Imediatamente todas as mulheres que estavam ali se levantaram e formaram uma espécie de círculo. Eu não sabia o que fazer e fiquei no meio delas com outras duas mulheres que pareciam tão perdidas quanto eu.
De repente, todo ar a nossa volta se transformou em água instantâneamente. As guerreiras continuaram paradas do mesmo jeito, eu sentia como se me afogasse do mesmo modo como me matei. Mas dessa vez a angústia e o medo eram muito maiores. Todas as mulheres começaram a mexer os braços com movimentos circulares. Era como se estivessem tirando a água da frente e trazendo o ar de volta. Até que enfim toda a água se dissipou e o ar retornou, consegui respirar novamente e cai no chão com a pressão do ar voltando aos meus pulmões.
Uma mulher surgiu dentre algumas nuvens baixas que se formaram.
- Ora, ora, ora, vocês estão melhorando, guerreiras da água.
As guerreiras, que a essa altura já estavam de joelhos, não olhavam para a mulher. Eu continuei no chão onde estava, cada vez mais perplexa com tudo que acontecia.
- Hoje eu acordei de bom humor e resolvi vir visitá-las. - Dizia a mulher que trajava uma roupa emponente de um azul noite que se confundia com as nuvens negras, mas em alguns momentos refletia a luz e brilhava, carregava um cetro com uma pedra azul em sua ponta e antes que alguém dissesse alguma coisa ficava claro pra mim que ela deveria ser uma rainha. - Na verdade, Leiva, eu vim propor uma troca.
Leiva então olhou para a rainha.
- Pode se levantar...
A guerreira fez como lhe foi ordenado.
- Minha rainha, sabe que nunca me oponho a qualquer coisa que me peça.
- Então, Leiva, deve saber também que apesar de muitos me acharem maligna eu sou muito justa e nunca peço nada sem oferecer algo em troca. - Disse a Rainha com um falso sorriso no rosto.
- Sim, minha rainha. - Respondeu Leiva com uma cara de poucos amigos.
- Eu vim trazer a boa nova da morte para uma de vocês. - Todas então sorriram e vibraram, se mantendo paradas no mesmo lugar, se contendo, mas claramente ficaram felizes com a notícia. Como alguém poderia vibrar com o aviso de morte?
- Oh, Senhora das Águas que nos abençoa, o que preciso fazer para compensar tal generosidade? - Realmente a cena parecia bem diferente aos meus olhos.
- Dessa vez, Leiva, é algo muito simples. Eu quero a eternidade daquela mulher. - Disse a Rainha apontando para mim. Fiquei aterrorizada, mais ainda do que já havia depois de tudo aquilo.
Leiva pareceu olhar muito surpresa, seu semblante era de alguém que tinha recebido a missão de matar o Leão da Neméia apenas com as mãos.
- Minha Rainha, se eu puder pedir algo, gostaria de conversar com as guerreiras para decidirmos quem será contemplada. - As guerreiras olharam espantadas e a Rainha deu de ombros.
- Muito bem, Leiva, sei que essa decisão poderia ser exclusivamente sua, ou mesmo minha... Mas farei como prefere, como eu disse, acordei de muito bom humor. - A Rainha riu de um jeito um tanto maquiavélico, mas um pouco estranho, quase engasgada. - Vou recuperar algumas algas mágicas que escaparam e retorno em pouco tempo para levar a garota. Às vezes gostaria de não ser a única que pode pegá-las. Pensando bem, não gostaria não... - E a Rainha saiu mergulhando novamente na nuvem que veio.
- O que você está fazendo, Leiva? E se essa mulher muda de ideia? - Uma das guerreiras questionou.
- Anna, já se esqueceu que as "trocas" que a rainha proporciona sempre significavam duas vantagens apenas para ela mesma? - Respondeu Leiva.
- Bom, saber negociar com a rainha foi o que lhe permitiu ser nossa líder. O que tem em mente? - Disse outra guerreira.
- Alguma vez a Rainha pediu uma de nós? Não! E já pensaram que sentenciariamos o Inferno para aquela menina, vivendo aqui ao lado da Rainha pra sempre? - Eu já não estava gostando nada, nada daquela conversa.
- Espere, como assim viver pra sempre? - Perguntei.
- Veja, a morte é como um teletransporte da alma, nós só nascemos uma vez e depois disso toda vez que morremos, seguimos algum caminho para algum outro planeta. Nosso corpo é reconstruído a cada morte no auge de nossa vitalidade. Porém esse planeta que estamos é como um dos infernos. Não importa como morremos, reaparecemos aqui da mesma forma que estávamos antes de morrer. Somos imortais nessa mesma realidade e não podemos fugir dela. A única forma de sairmos daqui é sendo mortos pela Rainha. Por algum motivo ela controla as algas mágicas que podem mais do que controlar a água, transformar qualquer matéria em água, incluindo o ar. E a única morte que não reconstroi nosso corpo nesse planeta é quando ela explode nosso corpo em água. - Leiva explicva e minha boca aberta parecia que ia atingir o chão. Por que não explicaram isso na escola?
- Mas o que garante a vocês que explodindo seus corpos vocês vão para outro planeta? - Questionei super segura de ter entendido tudo.
- A maioria de nós já morreu mais de uma vez e veio de mais lugares. Aprendemos que a alma não pode ser destruída. Se um corpo é destruído a alma refaz seu corpo em algum lugar. E pelas experiências que já trocamos, sofrer em uma vida e ser brutalmente assassinada é um passaporte certo para um lugar muito bom. - Terminou de explicar, Leiva.
- Ok, entendi... Eiiiii, então o que está em jogo aqui é eu permanecer pra sempre nesse lugar? - Agora caiu minha ficha da enrrascada que eu estava.
- Exatamente. - Respondeu Leiva com um semblante de quem sabia que não tinha escolha.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Capítulo 1 – A Morte nas Águas




Capítulo 1 – A Morte nas Águas



(Trilha sonora sugerida: Ludwig van Beethoven - Moonlight Sonata)


A água que é o símbolo da vida e que compõe a maior parte do nosso corpo pode nos salvar em um deserto escaldante, mas pode nos destruir, deixar sem ar, nos afogar. Tudo que existe nesse mundo ou em qualquer outro mundo que ainda desconhecemos possui duas faces tênues entre si, desde as moléculas mais básicas até os equipamentos mais complexos. Do oxigênio a bomba atômica. Tudo pode ser para o bem e para o mal. E também pode ser relativo, para o bem de uns e o mal de outros, dependendo do ponto de vista.
Mas o que determina a forma como a fonte da vida será utilizada para a morte é o movimento dentro de uma interminável lei de ação e reação. Tudo que fazemos de errado retorna invariavelmente contra nós um dia. Mas repare que o sujeito “nós” é a representação de uma coletividade completamente interdependente e mesmo que você haja da forma mais correta possível, de acordo com os preceitos da sua consciência, a ação de outra pessoa pode se voltar contra você mesmo. Ou a ação combinada de pessoas. Ou a “não ação”.
Então ao olhar nos meus olhos, que já conquistaram muitas pessoas perceberá que a cor que reflete a esperança já não espera mais nada da vida.
Desolada, já sem lágrimas no rosto, a fome se misturando com a sede e a vontade de não existir mais para não sentir nada, eu caminhava pelas ruas sem destino, sem saber por que ou para onde ir.
Deparei-me com uma ambulância e muitos socorristas trazendo um empresário desfalecido de dentro de um prédio enorme. Pela movimentação dos funcionários tratava-se de alguém importante. Senti uma sensação estranha como se aquela vida estivesse se esvaindo na minha frente e mesmo depois de tantas perdas recentes que tive aquilo me tocou. Não sei se foi a constatação que mesmo o dinheiro, a fama ou a força de vontade dos entes queridos não conseguem impedir a morte.
Um rapaz jovem acompanhava aquele senhor e pude notar que a relação parecia ser entre pai e filho. Antes de eles entrarem na ambulância eu notei algo que me impressionou mais ainda: o olhar daquele rapaz cruzou com o meu, cheio de lágrimas, perdido, mas não como os meus. Eu me sentia perdida no sentido de não querer mais ir por caminho nenhum, mas ele queria desesperadamente ir, mas não sabia pra onde. Pedi a Deus que os acompanhasse, pois se a mim não tivesse salvado, quem sabe a eles...
Pra mim não existe mais saída. O único caminho é o mar! O mesmo mar que levou naquele acidente de barco, meus pais, irmãos, marido e filhos e que me cuspiu viva pra areia, completamente sozinha, sem mais ninguém com quem contar, por quem ainda aqui ficar, esse mar dessa vez vai ter que me levar.
A cada passo que dou me aprofundando nas águas, sentindo as ondas me empurrando contra minha decisão ou a maré me puxando a favor é como se as mãos do meu amor fossem tocando meu corpo, subindo pelas minhas pernas, agarrando meu corpo, me possuindo aos poucos, com carinho mas de um jeito tão intenso.
Como ele me faz falta, como sinto saudade da forma como ele me olhava, de como me fazia sorrir com seu sorriso, de como me dava paz com seu peito me acolhendo e como me tirava do eixo com o jeito que me tocava.
Lembrando dele nem sinto o gelado da água, nem percebo ela chegando ao meu pescoço, as ondas já quebrando acima da minha altura e eu começando a engasgar com a água.
Lembro dos meus filhos brincando na areia, correndo em torno da gente... a verdadeira felicidade era a alegria e a pureza nos olhos deles.
Engulo mais água e apago por alguns momentos que não consigo precisar, quando recupero a consciência ouço gritos, pessoas querendo me salvar, tento afundar mais, ir mais longe, mas já não tenho força pra nada, só quero morrer logo, antes que alguém consiga evitar minhas intenções.
E finalmente não sinto mais nada, nem o frio das águas, nem o som das pessoas, nada, tudo se tornou escuridão.
É o fim!